10 anos da lei abolicionista francesa: um caminho internacional de resistência e transformação

Há 10 anos, foi adotada em França a Lei n.º 2016-444, de 13 de abril de 2016, que visa reforçar a luta contra o sistema de prostituição e apoiar as pessoas em situação de prostituição. Com a sua aprovação, caiu o mito de que o “Modelo Nórdico” não seria aplicável aos países do Sul da Europa.

A lei estrutura-se nos seguintes capítulos:

  • Capítulo I: Reforço dos meios de combate ao proxenetismo e ao tráfico de seres humanos para fins de exploração sexual (Artigos 1.º a 4.º)
  • Capítulo II: Proteção das vítimas da prostituição e criação de um percurso de saída da prostituição e de inserção social e profissional (Artigos 5.º a 16.º)
  • Capítulo III: Prevenção e acompanhamento no acesso a cuidados de saúde das pessoas em situação de prostituição, com vista a uma intervenção global (Artigo 17.º)
  • Capítulo IV: Prevenção das práticas de prostituição e do recurso à prostituição (Artigos 18.º a 19.º)
  • Capítulo V: Proibição da compra de atos sexuais (Artigos 20.º a 21.º)
  • Capítulo VI: Disposições finais (Artigos 22.º a 23.º)

Esta lei constituiu a conclusão formal de um processo parlamentar, tendo resultado de uma iniciativa da Assembleia Nacional francesa. O diploma foi assinado pelo Presidente da República, pelo Primeiro-Ministro e pelos membros do Governo competentes. A sua promulgação, a 13 de abril de 2016, ocorreu exatamente 70 anos após o encerramento oficial dos bordéis em França, a 13 de abril de 1946. A sua aprovação foi o culminar de sete anos de intensa mobilização e advocacy no país e apoiada a nível internacional.

Movimento internacional de apoio à Lei Francesa que contou, entre outros, com membros da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres

A lei estabeleceu, entre outras medidas:

  • O reconhecimento da prostituição como uma forma de violência e um obstáculo à igualdade entre mulheres e homens;
  • A revogação de todas as formas de criminalização das pessoas em situação de prostituição;
  • O reforço da proteção e o melhor acesso a indemnização para vítimas de prostituição, lenocínio e tráfico;
  • A definição de uma política nacional de saída da prostituição e de mecanismos de coordenação local para melhorar a proteção das vítimas e o acesso a apoio social e alternativas;
  • A possibilidade de concessão de autorização de residência temporária a vítimas estrangeiras de tráfico de seres humanos;
  • O reforço do combate ao lenocínio e ao tráfico na Internet;
  • A proibição da compra de atos sexuais;
  • A criação de políticas educativas sobre a não mercantilização do corpo humano a implementar nas escolas.

Três dias de mobilização feminista e abolicionista: pela defesa dos direitos de todas as mulheres!

10 anos depois, entre 12 e 14 de abril de 2026, cerca de 1000 participantes de todo o mundo juntaram-se em Paris: membros da CAP International – entre os quais a Associação O Ninho de Portugal -, sobreviventes da prostituição e da pornografia de 14 países, ativistas pelos direitos das mulheres, sindicatos, parlamentares, representantes das forças de segurança e Ministras para a Igualdade de França e da Suécia, demonstraram a força e a unidade do movimento feminista abolicionista.

Uma Marcha Mundial histórica de sobreviventes em Paris

A 12 de abril de 2026, uma marcha global pela abolição do sistema de prostituição reuniu sobreviventes e pessoas aliadas nas ruas de Paris, unidas por uma reivindicação comum de justiça social, igualdade e dignidade. Esta mobilização internacional enviou uma mensagem forte: reafirmou a abolição do sistema de prostituição a nível mundial e expressou uma solidariedade inabalável com todas as vítimas da sua violência.

Maggy Dago (2026). Marcha mundial de sobreviventes pela abolição do sistema de prostituição. Publicado por CAP International no X.

Conferência – Abolição em ação: 10 anos da lei abolicionista francesa

Sinto agora que vivo num mundo de seres humanos – Hope, a primeira mulher a beneficiar de um percurso de saída em França

Uma década após a sua adoção, a lei abolicionista francesa já transformou milhares de vidas:

  • 2.500 pessoas apoiadas através de percursos de saída — 90% das pessoas acompanhadas por ONG encontram-se atualmente em emprego estável
  • 11.000 compradores de sexo detidos
  • 92% da população francesa apoia o modelo (Fondation Scelles, 2025)

A 13 de abril, teve lugar na Assembleia Nacional uma conferência sob o alto patrocínio do Ministério para a Igualdade entre Mulheres e Homens.

Intitulada “Abolição em Ação”, a conferência assinalou uma década de aplicação da lei abolicionista em França e reuniu 49 oradoras e oradores em oito painéis. O encontro contou com a presença das Ministras para a Igualdade de França e da Suécia, bem como de deputadas/os, representantes de organizações feministas e de base, membros do sistema judicial, investigadoras/es, parceiros internacionais e sobreviventes, com o objetivo de analisar o percurso da lei e debater perspetivas futuras.

A sessão de abertura teve forte apoio político, incluindo a intervenção da Presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, que salientou que 92% da população francesa apoia atualmente a legislação, sublinhando uma evolução significativa da perceção social. Por sua vez, a Ministra Delegada para a Igualdade entre Mulheres e Homens, Aurore Bergé, afirmou que “a liberdade de uns não pode assentar na vulnerabilidade de outros”.

Os primeiros painéis centraram-se no processo de criação e aprovação da lei, evidenciando as dificuldades enfrentadas e o papel determinante das organizações feministas na sua implementação. Várias ex-deputadas destacaram a importância da pressão das ONG no avanço legislativo, enquanto intervenções de sobreviventes, como Rosen Hicher, reforçaram a necessidade de colocar as suas experiências no centro do debate e de combater estereótipos que desumanizam as mulheres em situação de prostituição.

Seguiu-se a partilha de experiências sobre a aplicação da lei, incluindo o testemunho de uma das primeiras mulheres a beneficiar de programas de saída, que relatou melhorias significativas na sua vida, como estabilidade habitacional e reintegração profissional, evidenciando o impacto concreto destas medidas.

A conferência abordou ainda a evolução internacional das políticas abolicionistas, destacando progressos alcançados, mas também desafios persistentes. Entre os temas discutidos estiveram a exploração em linha, o impacto de grandes eventos internacionais e a necessidade de reforçar recursos para uma implementação eficaz das políticas públicas.

A dimensão global esteve igualmente presente, com contributos de especialistas, representantes institucionais e sobreviventes de vários países. Foi também mencionada uma recente decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que confirmou a compatibilidade da lei francesa com os direitos humanos, reforçando a sua legitimidade no espaço europeu.

A análise comparativa entre modelos nacionais evidenciou realidades distintas: na Suécia foram referidas reduções da prostituição e do tráfico; na Alemanha, destacou-se a persistência de elevados níveis de exploração e a forte presença de mulheres migrantes. Em França, observou-se uma diminuição da prostituição de rua, acompanhada por uma crescente deslocação para plataformas digitais.

Na sessão de encerramento, o debate centrou-se nos desafios emergentes, em particular a exploração online e a necessidade de maior responsabilização das plataformas digitais. Foram igualmente sublinhados avanços legais no combate à difusão de conteúdos abusivos e na proteção das vítimas.

Os testemunhos das sobreviventes voltaram a enfatizar a importância de uma mudança de paradigma na abordagem social da prostituição, nomeadamente no que diz respeito à responsabilidade e ao estigma.

A conferência terminou com uma mensagem de continuidade do trabalho abolicionista, salientando os progressos alcançados e a necessidade de reforçar a proteção de mulheres e raparigas face a todas as formas de exploração.

Maggy Dago (2026). Conferência “Abolição em Ação”. Publicado por CAP International no X.

 

Conferência internacional e workshops – EXIT

A 14 de abril de 2026, a Cité Audacieuse acolheu o evento “EXIT”, dedicado aos percursos de saída da prostituição e ao combate ao sistema de prostituição.

Quatro associações membros da CAP International, ativas no Nepal, na Índia, no Líbano e na Mongólia, partilharam a sua experiência e o seu trabalho no terreno, destacando o impacto do sistema de prostituição nos seus países, as populações mais visadas e vulneráveis, as melhores práticas para a construção de alternativas sustentáveis e o acompanhamento global das pessoas que saem da prostituição.

Maggy Dago (2026). Evento EXIT. Publicado por CAP International no X.

O testemunho das participantes de Portugal oriundas da Associação O Ninho

A Associação O Ninho participou nas iniciativas realizadas em Paris no âmbito do 10.º aniversário da lei abolicionista francesa sobre a prostituição, promovidas pela Coalition for the Abolition of Prostitution (CAP). Esta participação teve como principais objetivos aprofundar o conhecimento sobre políticas públicas nesta área, reforçar a articulação internacional, promover a partilha de experiências e refletir estratégias de intervenção e investigação com organizações que intervêm segundo uma perspetiva abolicionista. O Ninho esteve representado pela sua diretora técnica Sandra Rodrigues e pela técnica Susana Silva.

Com 58 anos de intervenção direta junto de pessoas em situação de prostituição, O Ninho reconhece a importância destes espaços internacionais como momentos privilegiados de reflexão, aprendizagem e validação do trabalho desenvolvido. A conferência revelou-se particularmente relevante para compreender diferentes modelos de resposta, bem como para consolidar uma visão comum entre países que reconhecem a prostituição como uma forma de violência e desigualdade estrutural.

Durante a estadia em Paris, O Ninho reuniu ainda com o Mouvement du Nid e com a Fondation Scelles, e elementos do CAP International, reforçando a cooperação e a partilha de boas práticas. Estes encontros permitiram aprofundar o conhecimento sobre a implementação da lei abolicionista em França, nomeadamente no que respeita aos programas de saída da prostituição, financiados pelo Estado e operacionalizados por organizações no terreno.

Um dos aspetos mais marcantes da conferência foi a centralidade dos testemunhos de sobreviventes de prostituição, provenientes de países como os Estados Unidos da América, Colômbia, Espanha e França, entre outros. Muitas destas mulheres são hoje ativistas, investigadoras e defensoras da abolição da prostituição, contribuindo de forma determinante para o debate político e social. Os seus testemunhos convergiram numa ideia fundamental: a prostituição constitui um sistema de exploração assente em desigualdades profundas, sendo vivida como uma forma de violência e humilhação. Esta perspetiva foi reiterada por participantes de diversas origens, incluindo organizações da Irlanda, Bélgica, Índia, Coreia do Sul, Alemanha, Suécia, Mongólia e Colômbia, evidenciando a dimensão global do fenómeno.

Importa, contudo, sublinhar que estas mulheres percorreram caminhos profundamente exigentes e dolorosos até chegarem a este lugar de visibilidade e ativismo. Nem todas as sobreviventes que passaram por esta forma de violência têm hoje condições emocionais, sociais ou familiares para se exporem publicamente. Persistem o estigma, a vergonha e o receio de julgamento, sendo que “dar a cara” implica, frequentemente, tornar conhecido um passado que muitas prefeririam resguardar, seja para proteger a sua privacidade, seja para evitar o impacto junto da família, nomeadamente dos filhos, ou da comunidade onde vivem. O reconhecimento público, no bairro ou em contextos sociais próximos, pode constituir uma fonte adicional de sofrimento. Aliás, mesmo no decorrer da conferência, foi visível a carga emocional associada a estes testemunhos, algumas sobreviventes emocionaram-se profundamente, chegando a chorar durante determinadas intervenções e, em alguns casos, a sair da sala, o que evidencia a profundidade das marcas deixadas por estas experiências.

A experiência internacional permitiu também compreender diferenças significativas entre países com modelos distintos. Estudos apontam que, em países abolicionistas como a Suécia, cerca de 10% dos homens reportam ter comprado sexo, enquanto em países onde a prostituição é regulamentada, como a Alemanha, esse valor poderá ultrapassar os 60%. Já em Espanha, é reconhecida a elevada prevalência da compra de sexo, sendo frequentemente referida como um dos países europeus onde esta prática é mais comum. Estes dados reforçam a importância de políticas públicas que atuem ao nível da procura, responsabilizando o comprador e protegendo as pessoas em situação de prostituição.

No caso francês, destaca-se o papel do Estado na implementação de respostas estruturadas de saída da prostituição, através de programas nacionais financiados publicamente (estes programas são auto financiados, através de parcerias e de estruturas para o efeito). Em contraste, em países como a Suécia, embora exista igualmente um enquadramento abolicionista, os programas de inserção são maioritariamente desenvolvidos por organizações da sociedade civil. Esta diversidade de abordagens permitiu a O Ninho refletir sobre possíveis caminhos para Portugal.

A realidade portuguesa apresenta ainda desafios significativos. Destaca-se a ausência de uma estratégia política clara e integrada, bem como a insuficiência de respostas estruturadas de apoio à saída da prostituição. Portugal tem ainda um caminho a percorrer no reconhecimento da prostituição como uma forma de violência, frequentemente persistindo discursos que tendem a normalizar ou banalizar esta realidade.

O Ninho sublinha que a prostituição não pode ser entendida como uma escolha individual livre, mas como uma resposta condicionada por fatores como a pobreza, a desigualdade de género, a violência e a ausência de alternativas reais. Trata-se de um sistema que envolve não apenas a pessoa prostituída, mas também o comprador de sexo e redes de exploração, inserido num contexto mais amplo de lógica capitalista e patriarcal. A dignidade humana não pode, nem deve, ser objeto de negociação.

Importa igualmente destacar a relevância dos testemunhos das sobreviventes no debate público e político. Estas vozes oferecem uma perspetiva informada e crítica, essencial para a construção de políticas eficazes. Em Portugal, considera-se que estas experiências ainda não são suficientemente valorizadas, sendo necessário criar mais espaços de escuta e participação ativa destas mulheres.

Importa, contudo, refletir criticamente sobre os contextos em que algumas destas vozes emergem e são amplificadas no espaço público. Em determinados casos, verifica-se a existência de enquadramentos e apoios que se aproximam de perspetivas regulamentaristas, que tendem a apresentar a prostituição como uma atividade laboral equiparável a outras. O Ninho considera fundamental problematizar esta leitura. Na prostituição, não existe uma separação entre a pessoa e a “função”, a própria pessoa é o meio através do qual a atividade se realiza, o que a distingue profundamente de outras formas de trabalho, onde existem instrumentos ou mediações externas. Acresce que a defesa da regulamentação pode, em alguns contextos, estar associada a interesses económicos que procuram legitimar e normalizar um sistema do qual retiram benefícios, o que levanta questões éticas relevantes, nomeadamente num quadro legal como o português, onde o lenocínio é crime. Neste sentido, O Ninho sublinha que não é aceitável considerar como solução para pessoas em situação de maior vulnerabilidade aquilo que não seria desejável para os próprios filhos ou para qualquer pessoa em condições de igualdade.

A dignidade humana deve constituir um princípio universal, não podendo ser relativizada em função da condição social, económica ou das oportunidades disponíveis.

A participação neste encontro reforçou a convicção de que é urgente investir, em Portugal, em políticas públicas integradas, centradas na prevenção, na criação de alternativas e na proteção dos direitos humanos. Entre as prioridades imediatas destacam-se o reforço da incidência política, a divulgação do conhecimento adquirido e o fortalecimento de parcerias nacionais e internacionais, bem como o investimento em ações de formação e sensibilização dirigidas a profissionais e à comunidade, incluindo em contexto escolar.

Em termos de mensagem final, O Ninho sublinha que não é possível continuar a abordar a prostituição como uma escolha isolada. Trata-se de um fenómeno complexo, enraizado em desigualdades estruturais, que exige uma resposta política clara, coerente e centrada na dignidade humana. É fundamental recusar a normalização da exploração e investir de forma consistente em alternativas que promovam a autonomia, a inclusão e o respeito pelos direitos fundamentais de todas as pessoas. – Sandra Rodrigues, Diretora Técnica

 

 

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