Prostituição, tráfico e violência patriarcal: mulheres forçadas a alterar os seus corpos para alimentar a indústria da exploração sexual
Enquanto setores da sociedade continuam a romantizar ou a normalizar a prostituição como uma mera “escolha individual”, a realidade vivida por milhares de mulheres exploradas sexualmente revela uma verdade muito diferente: violência, controlo, coerção, tráfico humano e desumanização.
As histórias recentemente divulgadas no Reino Unido expõem uma realidade brutal. Mulheres traficadas foram encontradas em estado de subnutrição extrema, obrigadas a cumprir turnos de exploração sexual de até 20 horas consecutivas e submetidas a cirurgias estéticas forçadas para satisfazer as exigências de compradores de sexo e exploradores.
Estes casos não são exceções. São a manifestação mais visível de um sistema global que transforma os corpos das mulheres em mercadoria e que gera lucros milionários à custa da sua vulnerabilidade.
O corpo das mulheres como produto
Uma das revelações mais perturbadoras é a pressão exercida sobre mulheres traficadas para que alterem os seus corpos através de procedimentos estéticos. Segundo especialistas internacionais, estas práticas estão diretamente ligadas à crescente influência da pornografia na construção da procura masculina.
Tatiana Kotlyarenko, especialista internacional em direitos humanos, membro do Grupo de Trabalho sobre Tráfico Humano do Women 20 (W20/G20), e do Conselho de Administração da WoPAI explica que:
Grande parte disto é influenciada pelo que as pessoas veem na pornografia, que desempenha um papel enorme na criação da procura pela exploração sexual comercial e por determinados tipos de vítimas.
A especialista alerta que os traficantes observam as tendências do mercado sexual e moldam os corpos das mulheres para aumentar os seus lucros.
Quaisquer que sejam as tendências consideradas lucrativas – seios maiores, nádegas maiores, aparências mais jovens – os traficantes estão dispostos a forçar as vítimas a procedimentos estéticos para as tornar mais ‘comercializáveis’.
A linguagem económica utilizada pelos exploradores é reveladora: as mulheres não são vistas como seres humanos, mas como ativos financeiros. O seu valor é medido em função da capacidade de gerar lucro para terceiros.
Como sublinha Tatiana Kotlyarenko:
Isto tornou-se um fenómeno comum, particularmente nos países ocidentais como o Reino Unido, que são países de destino para vítimas de tráfico para fins de exploração sexual.
E conclui de forma particularmente esclarecedora:
Trata-se realmente de um investimento por parte dos traficantes para garantir lucros maiores.
A pornografia, a procura masculina e a exploração
Durante décadas, o debate público concentrou-se quase exclusivamente nas mulheres que se encontram na prostituição. Muito menos atenção tem sido dada aos homens que sustentam economicamente esta indústria.
As declarações de Tatiana Kotlyarenko reforçam aquilo que inúmeras organizações feministas têm denunciado há anos: a pornografia não existe isoladamente da exploração sexual. Pelo contrário, ajuda a moldar expectativas, fetiches e exigências que acabam por ser reproduzidos no sistema prostitucional.
Quando a procura masculina exige determinados corpos, determinadas práticas ou uma aparência cada vez mais jovem, são as mulheres mais vulneráveis — frequentemente migrantes, empobrecidas ou traficadas — que suportam as consequências dessa procura.
O resultado é uma escalada de violência física e psicológica que inclui cirurgias forçadas, práticas sexuais de risco, privação alimentar, consumo forçado de substâncias e agressões constantes.
Não são “trabalhadoras do sexo”. São mulheres exploradas
Os relatos provenientes do Reino Unido descrevem mulheres mantidas em apartamentos transformados em bordéis, controladas por redes criminosas, privadas da sua liberdade de movimentos e sujeitas a violência diária.
Uma mulher foi encontrada tão desnutrida que os ossos eram visíveis sob a pele. Outra era obrigada a a turnos de até 20 horas seguidas. Outra ficou com sequelas permanentes após uma cirurgia estética realizada para responder às exigências dos exploradores.
Perante estes factos, torna-se impossível ignorar a ligação entre prostituição, tráfico e violência masculina.
As organizações feministas que defendem o modelo abolicionista, também conhecido como modelo da igualdade, têm insistido numa ideia fundamental: a prostituição não pode ser analisada apenas como uma transação económica. Trata-se de uma instituição profundamente enraizada nas desigualdades entre mulheres e homens, na objetificação das mulheres e no acesso dos homens ao corpo das mulheres mediante pagamento.
Uma questão de direitos humanos
O tráfico para exploração sexual constitui uma das formas mais extremas de violência contra as mulheres. Não se trata apenas de criminalidade organizada. Trata-se de uma violação sistemática dos direitos humanos, da autonomia corporal e da dignidade das mulheres.
Por detrás de cada anúncio online, de cada apartamento convertido em bordel e de cada mulher vendida para satisfação sexual masculina existe uma história de vulnerabilidade, coerção e desigualdade.
O combate a esta realidade exige mais do que operações policiais. Exige políticas públicas centradas nos direitos das mulheres, apoio efetivo às sobreviventes, responsabilização dos exploradores e uma reflexão séria sobre o papel da procura masculina e da indústria pornográfica na perpetuação da exploração sexual.
Enquanto houver homens dispostos a comprar acesso ao corpo das mulheres, haverá quem encontre formas de lucrar com essa procura. E serão, uma vez mais, as mulheres mais vulneráveis a pagar o preço.
Nota editorial: Este artigo baseia-se em informação divulgada numa reportagem publicada pelo jornal britânico The Sun sobre tráfico e exploração sexual de mulheres no Reino Unido. A Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM) procedeu à sua análise e enquadramento numa perspetiva feminista e de direitos humanos. As citações de Tatiana Kotlyarenko, membro do Conselho de Administração da WoPAI, organização de que a PpDM detém atualmente a Presidência, reproduzem declarações publicadas na reportagem original.
Fonte: Henry Holloway e David Rivers, “Forced plastic surgery, 20-hour sex shifts, and brutal starvation… inside vile brothel trade hiding on UK high streets”, The Sun, 31 de maio de 2026.
Testemunho | Porque sou abolicionista
Márcia, 20 anos
A minha jornada enquanto abolicionista começou por influência de companheiras e amigas próximas que rapidamente me alertaram para a realidade do sistema de prostituição. Compreendi então a urgência de defender um modelo que efetivamente protege mulheres e raparigas dos abusos e da exploração inerentes a este sistema.
Sou abolicionista porque recuso os mitos da ‘escolha livre’ e do ‘empoderamento feminino’, frequentemente utilizados para branquear a violência associada à prostituição. Reconheço que proxenetas e compradores de sexo se aproveitam impiedosamente das vulnerabilidades económicas e sociais das mulheres.
Homens lucram com a exploração sexual de mulheres, lucram com a mercantilização dos seus corpos e lucram com a sua violação e abuso. Não podemos compactuar com esta realidade. Sou abolicionista porque, como afirma um conhecido lema feminista, ‘se uma de nós tem um preço, estamos todas à venda’.
Testemunho originalmente publicado no âmbito do projeto EXIT – Direitos Humanos das Mulheres a Não Serem Prostituídas, da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres.
