Três publicações bE_SAFE sobre a ciberviolência com base no sexo: conhecimento, responsabilização e ação política
A ciberviolência com base no sexo é uma das expressões mais atuais da violência contra as mulheres e as raparigas, com impactos profundos, duradouros e ainda largamente invisibilizados. A sua normalização no espaço digital reflete desigualdades estruturais baseadas no sexo e falhas persistentes na prevenção, na proteção das vítimas e na responsabilização dos agressores.
No âmbito do projeto europeu bE_SAFE: Conscientização sobre a CIBERVIOLÊNCIA e defesa de um ambiente online mais SEGURO para raparigas e mulheres, a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM) publica, e divulga a 6 de fevereiro de 2026, três documentos centrais que constituem ferramentas políticas fundamentais para compreender, denunciar e combater a ciberviolência com base no sexo em Portugal.
“A ciberviolência com base no sexo não é um fenómeno isolado nem neutro: é uma extensão das desigualdades estruturais e da violência contra as mulheres no espaço digital. O projeto bE_SAFE demonstra que só com investigação sólida, cooperação entre setores e valorização do conhecimento produzido por quem está no terreno é possível construir respostas eficazes, centradas nos direitos das mulheres e das raparigas. Combater a violência digital é, acima de tudo, uma responsabilidade política.” Paula Barros, Presidente da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres
Estas publicações não se limitam a descrever o fenómeno: exigem mudança.
1. Estudo nacional bE_SAFE
A ciberviolência com base no sexo em Portugal: perspetivas de crianças e jovens, escolas e forças de segurança
O estudo evidencia que a ciberviolência é uma realidade generalizada, estrutural e profundamente marcada pelo sexo, afetando de forma desproporcionada raparigas e jovens mulheres desde idades precoces, com impactos graves na sua saúde mental, bem-estar, percurso escolar/académico/profissional e exercício pleno dos seus direitos humanos.
O estudo “A ciberviolência com base no sexo em Portugal: perspetivas de crianças e jovens, escolas e forças de segurança”, de natrureza qualitativa, envolveu 27 grupos de discussão com 291 pessoas, entre crianças e jovens, docentes e pessoal técnico especializado nas regiões do Centro, Alentejo e Área Metropolitana de Lisboa, oriundos de 9 agrupamentos de escolas, e entrevistas com forças de segurança.
Entre as conclusões centrais destacam-se:
a desproporcionalidade do impacto da ciberviolência sobre raparigas;
a continuidade clara entre violência online e violência offline;
os graves efeitos na saúde mental, nos percursos educativos e no exercício dos direitos humanos;
as limitações estruturais das respostas institucionais, apesar do reconhecimento da gravidade do fenómeno.
Como sublinha Alexandra Silva, Coordenadora de Projetos e Investigação da PpDM:
“O estudo mostra que a ciberviolência contra raparigas é tolerada, o silêncio é cúmplice e a culpabilização das vítimas é prática corrente. Quando testemunhas são silenciosas, e as instituições falham, a violência intensifica-se e deixa marcas irreversíveis.”
2. Folha informativa A ciberviolência com base no sexo em Portugal na perspetiva de crianças e jovens
Esta folha informativa dá visibilidade direta às experiências de crianças e jovens, evidenciando como a violência digital é vivida no quotidiano e frequentemente banalizada. O documento mostra como o medo, a vergonha e a culpabilização silenciam as vítimas e limitam a denúncia, ao mesmo tempo que expõe a normalização de práticas violentas entre pares.
Trata-se de um recurso essencial para:
sensibilização de decisoras/es de política;
trabalho educativo em contexto escolar;
formação de profissionais que intervêm com jovens;
reforço de políticas públicas centradas na prevenção precoce.
A publicação reforça uma mensagem clara: sem escutar crianças e jovens, não há prevenção eficaz.
3. Folha informativa A ciberviolência com base no sexo em Portugal na perspetiva de docentes e pessoal técnico especializado
A terceira publicação centra-se nos desafios enfrentados por docentes e pessoal técnico especializado, revelando um paradoxo estrutural: há consciência da gravidade da ciberviolência, mas faltam ferramentas, enquadramento legal claro, formação especializada e articulação interinstitucional.
A folha informativa evidencia:
insegurança na identificação e gestão de situações de ciberviolência;
ausência de orientações claras e recursos adequados;
necessidade urgente de formação obrigatória e contínua;
a importância de integrar a dimensão digital da violência nas políticas educativas e de igualdade.
Este documento é particularmente relevante num momento em que Portugal enfrenta o desafio da transposição da Diretiva Europeia (UE) 2024/1385 relativa ao combate à violência contra as mulheres e à violência
doméstica, que reconhece explicitamente a violência digital contra as mulheres como crime e como violação de direitos humanos.
Publicações como instrumentos de transformação política
Em conjunto, estas três publicações bE_SAFE constituem:
um corpo sólido de evidência da realidade e baseada em direitos humanos;
uma ferramenta de pressão política junto do Estado e das instituições;
um recurso estratégico para formação, advocacia e prevenção;
um contributo concreto para uma transposição ambiciosa da legislação europeia.
A PpDM reafirma que combater a ciberviolência com base no sexo exige reconhecimento político, ação estrutural e responsabilização efetiva. A violência digital não é um problema individual, tecnológico ou inevitável – é uma expressão de desigualdade que pode e deve ser combatida.
O conhecimento existe. Agora é tempo para a política agir.

La cyberviolence sur le genre est souvent plus dévastatrice que la violence physique, car elle ne s’arrêté jamais (24h sur 24) et peut toucher une audience massive en quelques secondes. C’est un combat pour tous, tous unis nous vaincrions.