“A tua mãe é uma atrasada ambiental.”: Isto é discriminação com base no sexo.

No dia 28 de dezembro de 2025, a Electrão — entidade gestora de resíduos de equipamentos elétricos, pilhas, baterias e embalagens — publicou no seu canal oficial do YouTube um anúncio de sensibilização para a reciclagem que veicula uma mensagem ofensiva, estigmatizante e discriminatória dirigida às mulheres.

A frase “Agora a tua mãe… é que te vou dizer uma coisa: é uma atrasada ambiental” constrói uma associação direta com a expressão “atrasada mental”, mobilizando uma linguagem depreciativa que combina desvalorização intelectual e estigmatização social. A escolha da figura da “mãe” como alvo não é neutra: trata-se de uma representação claramente sexuada, que recai sobre as mulheres e as expõe à ridicularização e culpabilização públicas.

Esta mensagem traduz uma forma clara de discriminação com base no sexo. Por um lado, associa as mulheres à ignorância e ao falhanço em termos ambientais; por outro, reforça a ideia de que a gestão doméstica e a separação de resíduos constituem uma responsabilidade das mulheres, reproduzindo a divisão sexual do trabalho e desresponsabilizando os homens. Ao fazê-lo, perpetua estereótipos sexistas que sustentam desigualdades estruturais e limitam o exercício pleno da cidadania das mulheres.

A gravidade desta comunicação institucional é tanto maior quanto contradiz evidência estatística robusta. Dados recentes demonstram que são precisamente as mulheres quem mais adota práticas sustentáveis e quem desempenha um papel central na promoção de comportamentos ambientalmente responsáveis.

  • A Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG, 2025) destaca, no Boletim Estatístico de dezembro, o papel central das mulheres na gestão doméstica sustentável e na economia circular; https://www.cig.gov.pt/wp-content/uploads/2025/12/Boletim-2025_Versao-FINAL_site.pdf 
  • Os Inquéritos de Sentimento do Consumidor (BCG/Lusa, 2025) confirmam que 41% das pessoas adultas, com predominância das mulheres nas faixas etárias ativas, priorizam o impacto ambiental nas suas decisões de compra, especialmente em categorias como alimentação e produtos para o lar.
  • O Índice de Comportamento Sustentável da DECO Proteste (2025) revela que, embora Portugal esteja abaixo da média europeia em alguns indicadores, as mulheres apresentam maior predisposição para adotar comportamentos de eficiência energética e separação de resíduos.

Ao direcionar a crítica para um grupo que já demonstra elevados níveis de literacia ambiental e envolvimento em práticas sustentáveis, a campanha torna-se ineficaz e socialmente danosa. Em vez de promover mudança de comportamentos, reforça desigualdades de género e desvia a atenção de quem efetivamente necessita de alterar práticas.

A sensibilização ambiental não pode assentar na desvalorização das mulheres nem na reprodução de estereótipos sexistas.

A transição ecológica exige igualdade, corresponsabilidade e respeito pelos direitos humanos.

Tudo o resto é comunicação institucional que normaliza a discriminação com base no sexo.

Nota: artigo foi atualizado em 09.01.2025 para corrigir, eliminando, uma referência estatística através do Relatório anual dos ODS.

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